Primeiro Escritos e Provas

José Ángel Zamora López (comunicação verbal, conferência de Almendraleja, 2011) refere que os documentos mais antigos sobre viticultura foram encontrados na Síria (lajes de argila):

Em Ebla, cidade‑estado da Síria, no 3.º milénio a. C., foram encontradas cerca de 20.000 placas cuneiformes com as primeiras referências à viticultura, baseadas ainda numa actividade limitada, exclusivamente dedicada à nobreza.

Em Mari, na Mesopotâmia (hoje Tell Hariri), 2‑3.000 anos a. C., 25.000 placas cuneiformes contêm as primeiras informações sobre a forte presença da viticultura e do comércio de vinho, na região mediterrânea e no Golfo Pérsico.

Ugarid, cidade‑estado da Síria na Idade do Bronze (hoje Ras Shamra), começada a povoar no 6.º milénio a. C., teve o apogeu económico entre os anos 1450 e 1200 a. C.. Em placas cuneiformes está documentada uma viticultura forte e um comércio de vinho de nível internacional. No século XII a. C., a cidade foi tomada com Baco. Está documentada em pratos, vasos ornamentais e frescos coevos. Segundo Amaral (1994: 38), «Em escavações efectuadas em Abydos (Alto Egipto), foram encontradas, nos túmulos mais importantes da época «tintina» (3000 a. C.), câmaras destinadas a guardar o vinho que acompanharia o morto na sua viagem para o Além». Os antigos egípcios chamavam «irp» ao vinho. Análises por cromatografia e espectrografia de massa (por Rosa M. Lamuela‑Raventos, Univ. Barcelona, in Neue Züricher Zeitung, 9. 8. 2006) de resíduos em ânforas encontradas no túmulo de Tut‑Ank‑Amon comprovam a presença de vinhos tintos (como se admitia), mas também de brancos. No ano de 2470 a. C. (5.ª dinastia) era contabilizada a produção de vinho, por escrito, em registos classificados por seis regiões de origem. Os Egípcios identificavam as ânforas com inscrições que equivaliam aos rótulos actuais. Referenciavam os tipos de vinho mediante indicações enológicas, revelando variedades distintas:

– Mareótico: branco, doce, duro, com bom bouquet;

– Taniótico: branco esverdeado, doce, untuoso, aro‑mático, ligeiramente adstringente;

– Sebennyticum (segundo Plínio), produzido a partir de uvas de Thasos, de outra variedade de uva desig‑nada por «Fuligem», e de resina de pinheiro;

– Anthylla, oriundo do delta do Nilo, perto de Ale‑xandria (Amaral, 1994: 37). Como, nessa altura, o vinho começou a ter grande importância no comércio internacional, a referência à casta constituía, em muitos casos, um precioso segredo profissional. Assim, os vinhos foram inicialmente denominados pela origem geográfica. A «cultivar» utilizada era raramente referida.

Na Itália, no 1.º milénio a. C. (Idade do Ferro), na região à volta de Bolonha apareceu uma civilização do género Villanova, da qual se desenvolveu o povo Etrusco.

Devido à abundante presença de minas de cobre e metais nobres (prata e ouro), essa cultura desenvolveu contactos com os povos do Próximo Oriente. Eles seleccionaram cultivares da videira selvagem, com uma típica dominância de acidez. Foram inicialmente denominadas por videiras Labrusca. Variações de denominações similares encontram‑se na Europa; suspeita‑se de que foi uma denominação romana para a videira selvagem. Segundo Catão (234 – 149 a. C.), o cultivo da vinha surgiu na Itália romana com os Etruscos, de quem deriva a denominação de Labrusca, para uma casta que era cultivada recorrendo a um tipo muito específico de crescimento – arbustrum– apoiado em árvores (Amaral, 1994: 44) (Fig. 8 ‑ capítulo anterior), o que permite associar Vitis silvestris a videiras denominadas Labrusca.

Esta denominação também aparece em Portugal, associada ao Vinho Verde: a casta Labrusca (N.º 156 da Portaria 428/2000) ainda é cultivada com condução arbustrum. Na Roménia, a V. silvestris é designada por Laurusca (Turkovic, 1961: 89).

A elevada presença, ainda hoje, da V. silvestris na Península Ibérica (ver artigo de R. Ocete Rubio no cap. II deste livro) pode ser considerada como uma consequência da V. silvestris a sul dos 40o Latitude. Em Espanha, a videira selvagem é referida por Colmeira, Caballero e Roja Clemente (Luis Hidalgo, 1999: 27) entre outros autores.

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